
Em ano eleitoral, Foz do Iguaçu volta a assistir a uma cena que o eleitor já conhece de outros carnavais: antigos adversários que passaram anos trocando críticas, acusações e indiretas começam, de repente, a descobrir que têm muito mais coisas em comum do que imaginavam. O que ontem parecia uma guerra política hoje pode virar abraço, fotografia e discurso de “união pelo bem da cidade”.
A pergunta que começa a circular nos bastidores é inevitável: a rivalidade era verdadeira ou fazia parte do espetáculo eleitoral? Afinal, não deixa de ser curioso observar personagens que, até pouco tempo atrás, ocupavam lados opostos do ringue político agora sentados à mesma mesa, negociando alianças e procurando uma fórmula capaz de conquistar votos. Para o eleitor, fica a sensação de estar diante de um velho filme com novos figurinos.
Na política, alianças são legítimas e fazem parte do jogo democrático. Adversários podem mudar de opinião, partidos podem mudar de estratégia e interesses políticos podem convergir. O problema começa quando a população é tratada como se tivesse memória curta. Quem passou anos dizendo que determinado grupo era o problema da cidade precisa explicar por que, de repente, esse mesmo grupo passou a ser solução.
E é justamente aí que entra o ingrediente mais apimentado dessa eleição: o discurso de ontem contra o discurso de hoje. Se a rivalidade era tão intensa, o que mudou? Foram os problemas da cidade? As convicções políticas? Ou simplesmente a matemática eleitoral?
O eleitor de Foz do Iguaçu tem o direito de desconfiar. Afinal, campanha eleitoral não deveria ser uma peça de teatro na qual os personagens brigam durante quatro anos, ensaiam uma reconciliação às vésperas da eleição e depois aparecem juntos pedindo novamente a confiança da população. Se a briga era real, expliquem a reconciliação. Se a reconciliação é real, expliquem a briga.
É claro que ninguém é obrigado a permanecer inimigo para sempre. Política não é casamento e muito menos campeonato de futebol. Mudanças de posição fazem parte da democracia. Mas existe uma diferença enorme entre construir uma aliança baseada em propostas e simplesmente juntar antigos adversários porque a soma dos votos parece conveniente.
Foz do Iguaçu merece saber o que está por trás das alianças. Quem está abrindo mão de quê? Quem está apoiando quem? Quais compromissos estão sendo assumidos? O que mudou nas posições daqueles que agora caminham lado a lado? E, principalmente, o que será entregue ao cidadão caso esses grupos conquistem o poder?
No fim das contas, a eleição não deveria ser uma disputa para descobrir quem consegue representar melhor um personagem. Deveria ser uma oportunidade para o eleitor separar convicção de conveniência. Porque fotografia de abraço qualquer político pode produzir. Difícil mesmo é explicar as antigas acusações, sustentar as novas alianças e apresentar propostas capazes de convencer quem está cansado de assistir ao mesmo espetáculo.
E talvez a pergunta mais incômoda desta eleição seja justamente a mais simples:
Se aqueles que diziam ser inimigos agora estão juntos, quem estava enganando o eleitor: o inimigo de ontem ou o aliado de hoje?
A resposta, desta vez, não deveria estar nos palanques. Deveria estar nas urnas.


