
Por Ricardo Azevedo
O encontro realizado na noite de quinta-feira (10), na residência do diretor-geral brasileiro da Itaipu, Enio Verri, ganhou a fotografia nacional de uma declaração de apoio à reeleição do presidente Lula. Mas, olhando a movimentação pela lente da política de Foz do Iguaçu, talvez o fato mais importante esteja justamente fora da disputa presidencial.
Sete dos 15 vereadores da Câmara Municipal declararam apoio a Lula: Adnan El Sayed, Anice Gazzaoui, Balbinot, Beni Rodrigues, Professora Marcia Bachixte, Valentina e Yasmin Hachem. Eles pertencem a cinco partidos diferentes — PSD, PP, PSDB, MDB e PT.
A fotografia, portanto, é de um grupo suprapartidário que reúne quase metade do Legislativo municipal.
E é justamente aí que está o ponto político que merece ser observado.
A estratégia pode até ter Lula no discurso, mas o endereço é Foz
É evidente que existe um componente eleitoral nacional. Lula está em campanha pela reeleição e Enio Verri foi anunciado como coordenador da campanha do presidente no Paraná.
Mas reduzir o encontro a uma simples manifestação de apoio ao presidente seria enxergar apenas a superfície.
A política também trabalha com sinais.
E o sinal enviado de uma residência que pertence ao diretor-geral da Itaipu, reunindo sete vereadores de Foz, pode ser interpretado de outra maneira: o grupo que alguns setores da Prefeitura davam como desarticulado ou dividido mostrou que continua tendo capacidade de se reunir, conversar e produzir uma fotografia política de peso.
Não é pouca coisa.
São sete votos dentro de uma Câmara de 15 vereadores.
E sete votos, sozinhos, não formam maioria absoluta. Mas são votos suficientes para fazer qualquer governo municipal prestar atenção.
O alerta chega ao gabinete de Silva e Luna
O prefeito General Silva e Luna foi eleito em primeiro turno e iniciou o mandato com uma base política que, naturalmente, precisa ser administrada dentro de uma Câmara plural.
A composição atual tem 15 vereadores.
E aqui está a matemática que interessa à política municipal.
Para determinadas matérias que exigem maioria absoluta, são necessários oito votos, não dez. Já matérias submetidas a quórum qualificado de dois terços exigem 10 votos em uma Câmara de 15 integrantes. A legislação municipal estabelece diferentes quóruns conforme o tipo de matéria.
Portanto, quando se fala em projetos de grande interesse do Executivo que dependam de quórum qualificado, sete vereadores representam uma força que não pode ser ignorada.
Faltaria apenas uma articulação com outros três parlamentares para alcançar os 10 votos.
E é justamente essa capacidade de articulação que transforma um grupo de sete em algo politicamente maior do que simplesmente sete vereadores.
E tem mais: a Mesa Diretora
A eleição da Mesa Diretora também exige atenção.
A Câmara informa que a eleição dos cargos da Mesa ocorre por votação nominal e exige maioria absoluta, ou seja, em uma Casa com 15 vereadores, oito votos.
Aqui, a matemática é ainda mais interessante.
Um grupo de sete vereadores está a um voto da maioria absoluta.
Isso significa que uma articulação que consiga manter esses sete unidos e conquistar apenas mais um parlamentar pode ter peso decisivo em uma eleição interna da Câmara.
É aí que a fotografia da quinta-feira ganha outra dimensão.
O grupo que diziam estar separado aparece junto
Na política de Foz, alianças raramente são permanentes. Elas mudam conforme o projeto, a eleição, o orçamento, os cargos, as obras e, principalmente, conforme a relação entre Executivo e Legislativo.
Por isso, o que chama atenção não é apenas quem declarou apoio a Lula.
É quem estava junto.
Adnan, Anice, Balbinot, Beni, Márcia, Valentina e Yasmin representam partidos e trajetórias políticas diferentes. Ainda assim, estiveram juntos em uma mesma agenda política.
A leitura possível é clara: as diferenças partidárias não impediram a formação de um bloco circunstancial em torno de uma agenda política.
E, para o prefeito Silva e Luna, o recado pode ser mais importante do que a própria eleição presidencial.
Não é necessariamente um bloco contra Luna — mas é um bloco que Luna precisa considerar
Também seria precipitado afirmar que os sete vereadores formam uma oposição formal ao prefeito.
Não há, pelo encontro, elemento suficiente para afirmar isso.
Apoiar Lula não significa automaticamente fazer oposição a Silva e Luna. Inclusive, vereadores podem votar com o Executivo em determinadas matérias e divergir em outras.
Mas a política não se resume ao voto de hoje.
Ela também é feita de capacidade de organização, relacionamento e poder de negociação.
E a demonstração de quinta-feira mostra que existe um grupo de vereadores capaz de se reunir em torno de uma agenda política comum.
Para a Prefeitura, isso significa que não basta contar votos individualmente.
É preciso acompanhar como esses votos se comportam quando colocados em bloco.
A estratégia do “L” pode ser local
Talvez a grande leitura da fotografia de Enio Verri seja justamente essa:
o “L” que apareceu na reunião pode até representar Lula na campanha nacional, mas, em Foz, a estratégia pode estar olhando para muito mais perto.
O que está em jogo em uma eleição presidencial é uma coisa.
O que está em jogo na Câmara Municipal é outra.
São projetos, orçamento, alterações legislativas, concessões, políticas públicas, estrutura administrativa e, em determinados casos, decisões que exigem quórum qualificado.
E, no Legislativo, sete vereadores organizados podem ter muito mais importância para o prefeito do que parecem ter em uma fotografia de campanha presidencial.
A própria Câmara reconhece que os vereadores têm entre suas funções apreciar os projetos encaminhados pelo Executivo e fiscalizar os atos do governo municipal.
Por isso, talvez o principal destinatário da mensagem de quinta-feira não esteja em Brasília.
Pode estar no Paço Municipal.
A fotografia foi tirada na casa de Enio Verri.
O nome estampado na agenda foi o de Lula.
Mas o recado político, ao menos na leitura municipal, pode ter sido para o Luna:
E talvez seja exatamente essa a estratégia.
Não nacional. Local.
Porque eleição presidencial termina em outubro.
Já a relação entre Prefeitura e Câmara continuará sendo testada votação após votação.


