
Foz do Iguaçu chega ao fim das Eleições 2026 com um resultado que, à primeira vista, merece ser destacado: pela primeira vez, a cidade terá três deputados estaduais e um deputado federal eleitos com ligação direta ao município. Matheus Vermelho (PL), Paulo Mac Donald (PP) e Yasmin Hachem (PT) ocuparão cadeiras na Assembleia Legislativa do Paraná, enquanto Vermelho seguirá na Câmara dos Deputados.
É um salto importante. Foz passa de apenas um representante estadual para três. Yasmin também marca o retorno de uma mulher de Foz à Assembleia, depois de anos sem representação feminina local no Legislativo estadual.
Mas o resultado eleitoral também deixa uma pergunta que não pode ser ignorada: ter quatro deputados eleitos significa, necessariamente, que Foz finalmente terá a representação política que há décadas reivindica?
A resposta dependerá muito mais do mandato do que do resultado das urnas.
Na disputa estadual, o eleitor de Foz concentrou seus votos nos candidatos da própria cidade. Paulo Mac Donald foi o mais votado no município, com 43.208 votos, seguido por Ricardinho, Matheus Vermelho, Cabo Cassol, Yasmin Hachem e Valentina.
No caso da Câmara Federal, entretanto, o comportamento foi diferente.
Mais da metade dos votos válidos para deputado federal em Foz foi destinada a candidatos de outras cidades. Segundo levantamento baseado nos resultados eleitorais, os candidatos de fora somaram aproximadamente 77,3 mil votos, contra cerca de 68,7 mil dos candidatos ligados a Foz — algo próximo de 53% contra 47%.
Esse dado merece reflexão.
Não significa que o eleitor esteja errado por votar em candidatos de outras regiões. Cada eleitor tem liberdade para escolher quem considera mais adequado. Mas o resultado mostra que, mais uma vez, uma parcela expressiva do eleitorado de Foz decidiu entregar seu voto para políticos que não têm a cidade como base eleitoral principal.
E isso ajuda a explicar por que, durante tantos anos, Foz teve dificuldade para transformar seu peso econômico, populacional e estratégico em força política proporcional.
Durante as campanhas eleitorais, é comum ouvir que Foz precisa de mais deputados, que a cidade precisa de voz em Curitiba e Brasília e que a região precisa deixar de depender de políticos de outras cidades.
Agora, porém, a cidade tem a oportunidade de cobrar a consequência prática desse discurso.
Não basta dizer que Foz está representada. É preciso demonstrar que está.
Os quatro eleitos assumem mandatos diferentes, pertencem a partidos diferentes e terão posições políticas distintas. Isso faz parte da democracia. Não se espera que pensem da mesma maneira ou que votem sempre juntos.
Mas há uma questão que deveria estar acima das diferenças partidárias: quais são as prioridades de Foz do Iguaçu?
Saúde, segurança, infraestrutura, mobilidade, turismo, aeroporto, fronteira, educação, habitação, saneamento, desenvolvimento econômico e as particularidades de uma cidade localizada na Tríplice Fronteira não deveriam desaparecer da agenda parlamentar depois que termina a eleição.
Também é necessário acabar com uma cobrança equivocada que aparece frequentemente nas redes sociais e nas conversas políticas.
Deputado não executa obra como prefeito ou governador.
O deputado estadual atua no Legislativo: apresenta e vota leis estaduais, fiscaliza o Executivo, participa da discussão do orçamento e pode atuar politicamente na articulação de recursos e políticas públicas. Já o deputado federal legisla e fiscaliza no âmbito da União, além de participar da definição do orçamento federal e da destinação de emendas.
Portanto, não seria correto cobrar de um deputado que ele simplesmente "faça" um hospital, uma escola, uma estrada ou uma obra municipal.
A cobrança correta é outra:
Que ele trabalhe para que esses investimentos aconteçam, fiscalize sua execução, defenda as demandas da cidade, articule recursos dentro de suas atribuições e cobre os governos responsáveis.
É aí que a representação parlamentar pode fazer diferença.
E existe outro ponto que merece atenção.
Representar Foz não significa necessariamente fazer oposição permanente ao governo estadual ou federal. Da mesma forma, apoiar determinado governo não deveria significar abrir mão da autonomia parlamentar.
A cidade precisa de deputados que possam dialogar com o governador, com secretários, ministros, deputados de outras regiões e com o governo federal, independentemente de quem esteja no poder.
Mas diálogo é diferente de submissão.
A população não elege deputado para simplesmente dizer "amém" a tudo o que o governo apresenta. Deputado também tem a responsabilidade constitucional de fiscalizar o Executivo.
Se um projeto do governo for positivo para Foz, a representação local pode apoiá-lo. Se uma medida prejudicar a cidade, o parlamentar deve ter liberdade para questionar, propor mudanças e cobrar explicações.
Representação política não deveria ser medida pela quantidade de fotografias ao lado do governador, mas pela capacidade de colocar as demandas de Foz na mesa e sair dela com resultados concretos dentro das atribuições do mandato.
Matheus Vermelho terá um segundo mandato estadual e também seguirá na Câmara Federal; Paulo Mac Donald retorna ao Legislativo estadual depois de dois mandatos como prefeito de Foz; e Yasmin Hachem estreia na Assembleia.
Isso cria uma situação politicamente nova para a cidade.
São quatro mandatos para defender interesses locais em dois níveis de governo. E, ao mesmo tempo, quatro parlamentares que não necessariamente estarão do mesmo lado político.
É justamente aí que estará o desafio.
Foz não precisa que os quatro concordem sobre tudo. Precisa que consigam reconhecer aquilo que é interesse da cidade e trabalhar, cada um dentro de suas possibilidades, para avançar essas pautas.
A urna entregou aos quatro eleitos um instrumento que Foz muitas vezes pediu: representação parlamentar numericamente maior.
Agora cabe à população fazer a sua parte também: acompanhar votações, cobrar compromissos, perguntar por recursos, fiscalizar anúncios, verificar o que efetivamente foi conquistado e, principalmente, não aceitar que a representação se limite ao período eleitoral.
Aos deputados, a cobrança é igualmente objetiva:
Foz não precisa apenas de deputados que sejam de Foz. Precisa de deputados que representem Foz.
A diferença entre as duas coisas aparecerá nos próximos quatro anos.
Se essa nova bancada conseguir transformar a força eleitoral em articulação institucional, fiscalização e conquistas concretas para a cidade, 2026 poderá ser lembrado como um divisor de águas.
Se, ao contrário, os quatro mandatos forem absorvidos pelas disputas partidárias, pelos interesses individuais ou pela simples adesão automática aos governos de ocasião, o número de cadeiras terá sido apenas um dado estatístico.
A eleição deu a Foz quatro representantes. Agora é a cidade que precisa cobrar que esses quatro mandatos tenham conteúdo, independência e resultado.


